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  • Publicado por Tião Lucena

    “Vir a óbito” é de morte!



    Martinho Moreira Franco 

    É preciso ser Otávio Sitônio Pinto para escrever “esculápio” em lugar de “médico”. E escrever com propriedade capaz de fazer Biu Ramos dar a mão à palmatória. Falo por Biu porque ele foi um dos que me ensinaram, no velho “Correio da Paraíba” da Rua Barão do Triunfo, a evitar o uso de “nosocômio” em lugar de “hospital” quando o texto se referisse mais de uma vez a... hospital. Biu achava que o mal da repetição era menor do que o uso de um sinônimo de má sonoridade.

    Sim, eu aprendi com ele, com Gonzaga Rodrigues e com Natanael Alves (estes, no “Norte” da Rua Duque de Caxias) que mais vale uma repetição na mão do que dois sinônimos voando. E que a sonoridade, no texto, é fundamental. A mesma lição, aprendi com Antônio Barreto Neto, aqui n’A UNIÃO. Isso quando nem se cogitavam os manuais que só mais tarde pautariam as redações do “Jornal do Brasil”, da “Folha de S. Paulo” e do “Estadão”, entre outras.

    Escrever nosocômio para não repetir hospital era tão comum naquela época quanto chamar médico de facultativo ou advogado, de causídico. Havia alternativas bem mais infames. Parlamentar mirim em lugar de vereador, por exemplo, era de doer. E que tal profissional de volante substituindo motorista? Chefe do Executivo ocupando a cadeira de governador até que passava. Passou dos limites, todavia, um colunista político que, sem encontrar sinonímia mais contida para a função do ocupante do Palácio da Redenção, nomeou-o, simplesmente, “comandante em chefe da nau executiva tabajarina”. Simples assim...

    Era corriqueiro o uso de Câmara Alta para evitar a repetição de Senado e o de Câmara Baixa para não bisar Câmara Federal (nem preciso dizer que Câmara Municipal virava Parlamento Mirim, cruzes!). Mas havia outras substituições igualmente frequentes e bem mais dolorosas. Atire a primeira torneira quem nunca leu “precioso líquido” em lugar de água ou “precipitação pluviométrica” em vez de chuva. E não me vá aparecer quem pelo menos nunca ouviu falar em astro rei, vocês imaginam a quem substituía.

    Nenhum noticiário caprichava mais nessas infâmias, porém, do que o policial, incluindo o dos programas de rádio. Era nestes, aliás, que nosocômio mais fazia a festa. Nosocômio, facultativo, coloração violácea, agente da lei, meliante, desova, carraspana – o policialês era inesgotável. A bem da verdade, ainda hoje usa-se e abusa-se de antigos jargões e também de novos termos que, além de se estabelecerem no jornal e no rádio, migraram para a tevê. O mais terrível deles é o que dá título à coluna: “veio a óbito” . Esse, francamente, é de morte!

    E aí eu me pergunto: se é tão simples dizer que a pessoa morreu (ou faleceu, vá lá), por que diabos diz-se que ela “veio a óbito”? Pior: há repórteres e apresentadores informando que a pessoa “foi atendida, mas não resistiu e veio a óbito”. Bastaria informar que não resistiu, seria até uma boa alternativa. Mas o óbito tem de acompanhar o enterro, que coisa! Sitônio Pinto bem que poderia indicar, com a sua habitual propriedade, um esculápio para cuidar desses casos.

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    Martinho Moreira Franco escreve em A União aos domingos e quintas-feiras

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Perfil do Tião Lucena

Tião Lucena, nascido e criado no Sertão, é jornalista desde 1975, tendo começado em A União como repórter e trabalhado em O Norte, no Correio da Paraíba, no Jornal O Momento e no jornal de Agá. Nos três primeiros desempenhou as funções de repórter, editor político, editor do interior, chefe de reportagem e secretário de redação. Também foi vice-presidente da API e diretor do Sindicato dos Jornalistas. Cansou de trabalhar em jornais, cansou de patrões e resolveu criar um espaço somente seu na internet, onde pretende fazer um jornalismo sem cabresto e sem censura.

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